Servicios Koinonía    Koinonia    Vd esta aquí: Koinonía> Relat > 236p
 

 

Quem subverte o Concílio?

Resposta ao Card. J. Ratzinger
A propósito da Dominus Jesus*

Leonardo Boff


Em que sentido deve ser entendida a afirmação da Lumen Gentium de que "a Igreja de Cristo, constituída e organizada neste mundo como uma sociedade, subsiste (subsistit in) na Igreja Católica governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão com ele, embora fora de sua estrutura visivel se encontrem vários elementos de santificação e verdade" (n.8)]

1. A controvérsia acerca do "subsistit in"

Em meu livro "Igreja: carisma e poder"(1981) dizia: "A Igreja católica, apostólica, romana é por um lado a Igreja de Cristo e por outro não o é. É Igreja de Cristo porque nesta mediação concreta ela aparece no mundo. Mas também não o é, porque não se pode pretender identificá-la exclusivamente com a Igreja de Cristo, porque essa pode subsistir também em outras Igrejas cristãs. O Concílio Vaticano II, superando uma ambiguidade teológica de eclesiologias anteriores que tendiam a identificar pura e simplesmente a Igreja de Cristo com a Igreja católica romana, ensina com acerto: 'Esta Igreja (de Cristo) subsiste na Igreja Católica (subsistit in: tem sua forma concreta na Igreja Católica). Evita dizer como está em documentos anteriores: é a Igreja de Cristo"(p.134).

Na Notificação da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (1985) que censurava o livro (e impunha um ano de 'silêncio obsequioso' ao autor) seu Prefeito, o Card. J. Ratzinger, se mostra especialmente duro contra essa interpretação. Afirma que Boff "extrai uma tese exatamente contrária à significação autêntica do texto conciliar. O Concílio tinha, porém, escolhido a palavra "subsistit" exatamente para esclarecer que há uma única "subsistência" da verdadeira Igreja, enquanto fora de sua estrutura visível existem somente "elementa Ecclesiae", que &endash;por serem elementos da mesma Igreja&endash; tendem e conduzem em direção à Igreja católica (Lumen Gentium,8)". E o texto da Notificação arremata: "a subversão do significado do texto conciliar sobre a subsistência da Igreja está na base do relativismo eclesiológico de L.Boff… no qual se desenvolve e se explicita um profundo desentendimento daquilo que a fé católica professa a respeito da Igreja de Deus no mundo" (cf. AAS 77, 1985, 756-762).

No Congresso Internacional sobre a atuação do Vaticano II (Roma, 25-27 de fevereiro de 2000) revelava o mesmo Card. J. Ratzinger em seu discurso doutrinário sobre "a natureza da Igreja", onde retoma a questão do "subsistit in", que essa tomada de posição contra o livro de L. Boff "é o único pronunciamento oficial do magistério depois do Concílio, sobre esta palavra e que não pode ser transcurado"(cf. o texto em Il Regno 7/2000 p. 237a).

Nesta mesma conferência enfatiza o Card J. Ratzinger: "Na diferença entre "subsistit' e 'est' se esconde todo o problema ecumênico. A palabra 'subsistit' deriva da antiga filosofia posteriormente desenvolvida na escolástica. A essa corresponde a palavra grega 'hypostasis', que na cristologia desempenha uma função central, para descrever a união da natureza divina e humana na pessoa de Cristo. "Subsistere" é um caso especial de "esse". É o ser na forma de um sujeito a se stante (que se sustenta a si mesmo). Aqui se trata exatamente disso. O Concílio quis dizer-nos que a Igreja de Jesus Cristo como sujeito concreto nesse mundo pode ser encontrada na Igreja católica. E isso só pode acontecer uma única vez e a concepção segundo a qual o "subsistit" seria de multiplicar-se não colhe propriamene o que se pretendia dizer. Com a palavra "subsistit" o Concílio queria exprimir a singularidade e não a multiplicidade da Igreja católica; existe a Igreja como sujeito na realidade histórica" (cf. Il Regno 237b).

Essa interpretação pessoal do Card. J. Ratzinger é repassada à Declaração Dominus Jesus (6 de agosto de 2000) da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, da qual é Prefeito: "Com a expressão «subsistit in», o Concílio Vaticano II quis harmonizar duas afirmações doutrinais: por um lado, a de que a Igreja de Cristo, não obstante as divisões dos cristãos, continua a existir plenamente só na Igreja Católica e, por outro, a de que «existem numerosos elementos de santificação e de verdade fora da sua composição», isto é, nas Igrejas e Comunidades eclesiais que ainda não vivem em plena comunhão com a Igreja Católica" (n. 16). Em nota no rodapé (n. 56) a Declaração, honrando-me, cita explicitamente a Notificação contra L.Boff e reitera que a intenção do Concílio foi a de reafirmar com a expressão "subsistit in", a 'única subsistência" da Igreja católica.

 

2. Qual a mens Patrum Concilii acerca do "subsistit in"?

Eis os termos da controvérsia. Cabe agora perguntar: Essa interpretação do Card. J. Ratzinger,de fato, corresponde à verdade histórica do Concílio ou é a receptio que ele faz, por sua conta, dentro de um certo tipo de compreensão da natureza da Igreja que pessoalmente possui? Aqui urge tirar a limpo a verdade histórica, expressa por um Concílio ecumênico, cuja autoridade está acima da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé e de seu eventual Prefeito. Este, na pessoa do Card. J. Ratzinger, deve ater-se à mens Patrum Concilii como qualquer outro fiel e teólogo. Qual é, de fato, essa mens Patrum?

Para respondermos a essa questão precisamos ter sempre em mente não apenas o termo "subsistit in" mas três elementos fundamentais: primeiro, os textos preparatórios, prévios à Lumen Gentium e considerar como eles elaboraram a relação da Igreja de Cristo com a Igreja católica (neles ocorre a expressão "est"). Segundo, qual o sentido do n. 8 da Lumen Gentium, onde ocorre a palavra "subsistit in" (substituindo o "est"). Terceiro, importa tomar a sério o que o Papa Paulo VI enfatizou no momento mesmo em que sancionava a Lumen Gentium (sobre a Igreja) junto com a Unitatis Redintegratio (sobre o Ecumenismo), a saber, que a doutrina conciliar sobre a Igreja deve ser interpretada à luz das explanações do Decreto sobre o Ecumenismo (AAS 56, 1964, 1012-1013). E nós acrescentaríamos, também à luz dos pronunciamentos do Magistério pontifício, sinodal e episcopal do pos-Concílio quando se referem a outras Igrejas não católicas.

 

a) "Subsistit in" não é sinônimo de "est"

Os comentaristas da Lumen Gentium assinalaram a evolução ocorrida nos vários schema de Ecclesia, propostos aos Padres conciliares e nas discussões na aula que antecederam à aprovação final da Lumen Gentium (21 de novembro de 1964 junto com o Decreto sobre o ecumenismo Unitatis Redintegratio). No esquema de 1962 se dizia, consoante o consenso da teologia e do ensino do Magistério daquele tempo: "A Igreja católica romana é (est) o Corpo místico de Cristo…e somente aquela que é católica romana tem o direito de ser chamada de Igreja"(Acta Synodalia Concilii Vaticani II, I/4, 15). Vários Padres conciliares fizeram críticas a essa identificação pura e simples (como os importantes Cardeais Bea e Lienard), em razão de sua ressonância anti-ecumênica.

O schema de Ecclesia de 1963 continuava afirmando a identificação mas introduziu uma abertura, ao reconhecer que "muitos (plura) elementos de santificação podem se encontrar fora da sua inteira estrutura (da Igreja)"; são "elementos que pertencem propriamente (in propio) à Igreja de Cristo"(Acta Synodalia, op.cit. II/1,219-220). Aqui se constata, ineludivelmente, um progresso, pois, se reconhece elementos eclesiais para além dos limites da Igreja católica.

O esquema definitivo de 1964 assumiu os acréscimos e procurou conciliar as duas afirmações: por um lado, a identificação da Igreja de Cristo com a Igreja católica e por outro, a admissão da existência de elementos eclesiais fora dela. A fórmula encontrada foi substituir o "est" pelo "subsistit in". O texto final, portanto, não afirma mais a Igreja de Cristo "é" a Igreja católica, mas diz: a Igreja de Cristo "subsiste na Igreja catóilica". Qual é o sentido exato dessa mudança?

A comissão teológica do Concílio dá as razões da mudança: "para que a expressão concorde melhor com a afirmação acerca de elementos eclesiais (de elementis ecclesiastibus) que se encontram alhures"(alibi no sentido de: para além da Igreja católica: Acta Synodalia op.cit. 177). Mas a comissão nunca explicou oficialmente o que entende por "subsistit in". Apontou, entretanto uma direção segura. Ao resumir o n.8 da Lumen Gentium onde ocorre a palavra "subsistit in", faz duas afirmações que ajudam a entender o "subsisit in": "A intenção do n. 8 é mostrar que a Igreja, cuja natureza íntima e secreta se descreve, natureza essa pela qual se une perpetuamente com Cristo e sua obra, é encontrada concretamente (concrete inveniri) nessa terra na Igreja católica. Esta Igreja empírica (haec autem Ecclesia empirica) revela um mistério, mas não sem sombras, por isso, deve ser conduzida à plena luz, assim como também Cristo, o Senhor, pela humilhação chegou à glória. Desta forma se previne contra a impressão de que a descrição proposta pelo Concílio seja meramente idealística e irreal" (Acta Synodalia III/1,176). A expressão "é encontrada concretamente" nos ajuda a entender o "subsistit in" também em termos concretos e não abstratos. Isso fica mais claro na segunda afirmação quando diz: "A Igreja é unica e nessa terra está presente (adest in) na Igreja católica, embora fora dela se encontrem elementos eclesiais"(Acta Synodalia III/1,176). "Adest in", (está presente) corresponde claramente a "subsistit in (subsiste).

Essas indicações são fundamentais, pois fecham a porta a uma interpretação puramente substancialista e identificatória da Igreja de Cristo com a Igreja católica e, desta forma, invalidar um avanço sobre a eclesiologia pre-conciliar.

Mas importa aprofundar a expressão "subsistit in". Quando não há uma interpretação específica e oficial de uma palavra, no caso do "subsistit in", devemos, então, seguir a regra geral da hermenêutica: as palavras têm o sentido que lhes é conferido pelo seu uso comum.

Qual o sentido comum de "subsistere"? Sirva-nos de referência o clássico dicionário latino de Forcellini. Os muitos sentidos apresentados, vão, sem exceção, na linha do concreto e do histórico (como acenado pela explanação da comissão teológica do Concílio acerca do n.8 da Lumen Gentium). Os sinônimos de "subsistere" são: "manere, permanere, sustentare, resistere, consistere, fermare, adstare"(Totius Latinitatis Lexicon, vol. V, 707-708). Nenhum na linha pretendida pelo Card. J. Ratzinger da "hypostasis" e da subsistência como termo técnico da cristologia. Observando-se os exemplos dados por Forcellini, verifica-se claramente que o "subsistit in" consente ser traduzido por "fazer-se presente, ser encontrado concretamente, ganhar forma e concretizar-se".

Resumindo, o "est' remete para uma visão essencialista, substancialista e de identificação e pede uma definição essencial de Igreja. O "subsistit in" aponta para uma visão concreta e empírica, no sentido concreto do n.8 da Lumen Gentium. O sentido é de que a Igreja de Cristo "subsiste na" Igreja católica, vale dizer, ganha forma concreta e se concretiza na Igreja católica.

À base desta compreensão, se entende que os Padres conciliares tenham substituido o "est" ("é", expressão da substância e da identificação) por "subsistit in" (ganha forma concreta, se concretiza). A Igreja de Cristo se concretiza na Igreja católica, apostólica, romana. Mas não se exaure nesta concretização, pois ela, por causa das limitações históricas, culturais-ocidentais e outras, especialmente em razão das sombras e dos pecadores presentes em seu interior (Lumen Gentium n.8 c), não pode identificar-se in toto, pure et simpliciter, sem resto, com a Igreja de Cristo. A Igreja é semper reformanda e na tradição dos Padres comparece como casta meretrix, e, por isso, como uma realidade do tempus medium com as marcas limitadoras da peregrinação, rumo à plenitude, possível somente na escatologia.

Igreja de Cristo e Igreja católica não se cobrem totalmente. A Igreja de Cristo é maior que a Igreja católica. Por causa desse fato, a Igreja de Cristo pode subsistir, vale dizer, ganhar outras expressões histórico-culturais, ao longo da história da mesma Igreja católica ontem e hoje, em outras Igrejas cristãs e comunidades eclesiais. Juntas e em comunhão entre si formam a Igreja de Cristo na história, a Igreja de Deus através dos tempos.

De toda esta argumentação fica claro: "subsistit" não é sinônimo de "est". Se fosse sinônimo, por que, então, a mudança introduzida pelos Padres conciliares? Em outras palavras, a decisão de não mais usar o "é" visa evitar uma identificação pura e simples da Igreja de Cristo com a Igreja católica. Ao fazer isso, os Padres conciliares abrem espaço para que "os muitos elementos de santificação e de verdade" sejam reconhecidos como "eclesiais". Portanto, a Igreja de Cristo desborda da Igreja católica.

 

b) O retrocesso do Card. J. Ratzinger ao pre-Vaticano II

A interpretação do Cardeal Ratzinger faz do 'subsistit in" um equivalente de "est" ("um caso especial de esse" como o disse explcitamente em sua conferência sobre a natureza da Igreja: Il Regno, op.cit. 237b). Por isso podia dizer como o fez na Notificatio (1985) contra o meu Igreja: carisma e poder: "existe uma só 'subsistência' da verdadeira Igreja, enquanto fora de sua estrutura visível existem somente 'elementa Ecclesiae' que &endash; sendo elementos da mesma Igreja &endash; tendem a conduzem à Igreja católica"(AAS 71, 1985,758-759). A mesma coisa repetiu na Dominus Jesus (n. 16, citando-me explicitamente na nota 56).

Aqui há um evidente retrocesso à posição anterior ao Vaticano II, superada pela Lumen Gentium. A identificação feita pelo Card. J. Ratzinger, entre Igreja de Cristo e Igreja católica é tão exclusiva que fora dela não há Igreja, somente "elementos de Igreja".

Notemos uma modificação importante: o texto do Card. J. Ratzinger afirma que fora da Igreja católica existem somente elementos eclesiais, enquanto o Concílio não fala assim. Fala, positivamente, que existem "muitos elementos" (plura) e não "somente" (solum) elementos de Igreja. Mais ainda. A Lumen Gentium no n. 15, ao se referir aos muitos modos como a Igreja católica é unida com os cristãos não católicos, ensina que esses cristãos recebem o batismo e "até reconhecem e aceitam outros sacramentos nas próprias Igrejas ou Comunidades eclesiásticas" (in propriis Ecclesiis vel Communitatibus ecclesiasticis). A relatio da comissão teológica esclarece que tais sacramentos são recebidos nas suas Igrejas ou comunidades cristãs enquanto tais (Acta Synodalia, III/7, 36: "in quanto tali ipsae Ecclesiae vel Communitates"). Portanto, não se trata apenas de "elementos de Igreja" que concernem apenas aos indiviíduos mas também às suas comunidades. A relatio da comissão teológica enfatiza com clareza: "precisamente no reconhecimento deste fato se situa o fundamento do movimento ecumênico"(Acta Synodalia III/1, 204). Em razão disso, podia o Decreto sobre o ecumenismo dizer que essas Igrejas separadas e Comunidades eclesiais "não são efetivamente destituidas de significado e de peso no mistério da salvação porque o Espírito não recusa servir-se delas como instrumentos de salvação" (n. 3d). Portanto, não apenas os sacramentos possuem valor salvífico mas também as Igrejas e Comunidades eclesiais enquanto tais, como aliás torna a reafirmar a comissão teológica (cf. Acta Synodalia III/7, 36: "o Espírito Santo se serve daquelas Comunidades como instrumentos de salvação").

Ademais a expressão "Comunidades eclesiais" aplicada às "igrejas" saídas da Reforma, revela que elas possuem um caráter eclesial, vale dizer, um caráter de Igreja, embora não se atribua a elas, oficialmente, tal título. A Relatio da comissão teológica, fazendo referência à praxe comum de falar delas em termos de Comunidades eclesiais, explica que tais Comunidades não são uma soma de indivíduos mas "são constituídas por elementos sociais e eclesiásticos… que conferem a elas um caráter verdadeiramente eclesial. Em tais Comunidades, embora imperfeitamente, está presente a única Igreja de Cristo, de uma maneira semelhante àquela, segundo a qual ela está presente nas Igrejas particulares, e por meio de seus elementos eclesiais a Igreja de Cristo é, de algum modo, operante nelas" (Acta Synodalia III/2,335).

Aqui se diz com todas as letras que a Igreja de Cristo está presente (o sentido de "adest in" e "subsisit in"), nas Comunidades eclesiais, embora imperfeitamente. Assim como está presente nas Igrejas particulares como a ortodoxa e a dos Velhos Católicos, está de forma semelhante presente nas Comunidades eclesiais. Portanto, não se pode negar a tais Comunidades o caráter de Igreja, embora no linguajar costumeiro do Magistério não sejam chamadas tecnicamente de Igrejas. Entretanto, o próprio Magistério, papal, sinodal e episcopal, posterior ao Concílio Vaticano II usa o termo Igrejas às Comunidades eclesiais não católicas. Não se trata, seguramente, de mera concessão à gentileza da linguagem. Trata-se, sim, de uma clarificação e expansão orgânica de um sentido teológico vedadeiro, subjacente na fórmula "elementos eclesiais". Esse sentido é como uma semente lançada em terra fértil pelo Vaticano II. Essa semente se transformou posteriormente em flor e fruto. A consciência teológica cresceu a ponto de se poder afirmar que todas as Igrejas e Comunidades eclesiais participam da Igreja de Cristo.

Como exemplo, aduzamos o texto comum do bispo católico alemão D. Tenhumberg e do Praeses evangélico no livro Die Kirche auf gemeinsamen Wege: "O ser-Igreja não coincide simplesmente com a Igreja católica. Há também fora da Igreja católica inúmeros elementos eclesiais. Os textos conciliares, por isso, aplicam os conceitos 'Igrejas e Comunidades eclesiais' também a outras comunidades cristãs. Elas participam da Igreja fundada por Cristo. Há vários graus de densidade na concretização da Igreja como instituição fundada por Cristo" (p. 256).

Como expressar teologicamente esses vários graus de densidade na concretização da Igreja? O próprio Concílio nos dá a fórmula: entender a Igreja como sacramentum. É o que defendíamos em nossa tese doutoral Die Kirche als Sakrament im Horizont der Weltefahrung (Paderborn 1972) e no nosso livro censurado Igreja: carisma e poder (1981). Tentamos mostrar a fecundidade da categoria sacramentum (sinal e instrumento) para sinalizar os distintos graus de densidade e de concretização da realidade complexa da única Igreja de Cristo. A expressão Sacramentum, une numa só palavra, o visível e o invisível, o humano e o divino e, ao mesmo tempo, permite uma gradação na concretização e na manifestação de uma mesma realidade (sacramentum/ res et sacramentum/ res). Como sabemos, trata-se de um termo que vem da mais antiga tradição comum da Igreja, usado já no século segundo para definir a natureza da Igreja como sacramentum Christi.

 

c) As contradições do Card. J. Ratzinger

Tal interpretação invalida a compreensão do Card. J. Ratzinger que dá um "tour de force" à palavra "subsistit in" e a traduz por "subsistência" no sentido abstrato teológico-filosófico, quando seu contexto é concreto e empírico. É como se alguém dissesse ao outro: "casa mesmo é só a minha; a sua não é casa; você possui apenas elementos de casa (elementa Ecclesiae), como tijolos, janelas, telhas, mesas e armários, elementos de casa que foram tirados de minha casa e que, por isso reclamam o seu dono, e devem, portanto, retornar a ela".

Tal afirmação além de arrogante é errônea, segundo a mens Patrum que acabamos de tirar a limpo. O próprio Card. J. Ratzinger se dá conta dos problemas insolúveis de sua interpretação. Em sua conferência sobre a natureza da Igreja, diz a esse propósito: "esta diferença entre "subsistit" e "est" não se pode resolver plenamente, em último termo, do ponto de vista lógico"(cf. en Il Regno, op. cit. 237b). O que se está afirmando? Confessa-se simplesmente um impasse. Seguramente, o Concílio com o "subsistit in" não quis introduzir impasses nem novos problemas, ao contrário, quis resolver problemas. O problema não está no Concílio mas na cabeça do Card. J. Ratzinger com sua interpretação reducionista. Esse reducionismo se revela no final de sua explanação sobre a natureza da Igreja. Ao reconhecer o desastre que significa o pecado da desunião das Igrejas afirma, paradoxalmente: "Na medida em que a divisão como realidade histórica é perceptível a cada um, a subsistência da única Igreja na figura concreta da Igreja católica só pode ser percebida como tal na fé"(Il Regno, op.cit. 238a).

A posição do Card. J. Ratzinger se agrava pois faz evaporar seus próprios argumentos acerca da concreção histórica da Igreja de Cristo. Mais ainda, compromete a leitura do número 8 da Lumen Gentium que dá ênfase à Igreja empírica, concreta, estruturada. Portanto, em algo que se vê, se toca, se apreende pelos sentidos corporais. Agora comparece o Card. J. Ratzinger e afirma o contrário, que a percepção é de fé, portanto, pelos sentidos não corporais. A unidade se invisibiliza e se desrealiza, destruindo toda a argumentação do Concílio. Tal é a consequência da interpretação do Card. J. Ratzinger, fatalmente contrária à mens Patrum e ao Concílio. Simples teria sido, se o Card. J.Ratzinger, em obediência à essa mens Patrum, sustentasse humilde e verdadeiramente: a Igreja de Cristo se realiza concretamente nas Igrejas e Comunidades cristãs em distintos graus de visibilidade e de plenitude (por exemplo nas pequenas comunidades eclesias de base das favelas do Rio de Janeiro e no interior da floresta amazônica, e como essas comunidades se alegram ao se sentirem e saberem que são realmente Igreja de Cristo, mesmo não tendo eucaristia e presbitério), em outras Igrejas cristãs e Comunidades eclesiais que se reportam a Cristo como salvador, libertador e Verbo encarnado.

Até poderíamos lhe conceder a pretensão de que a Igreja católica que ele tanto exalta e ardorosamente defende contenha a plena visibilidade e plenitude (a ser sempre comprovada pelos fatos e não apenas fundamentalisticamente afirmada). Mas isso não impede que essa mesma Igreja de Cristo esteja presente em outras Igrejas cristãs, em tantos pontos, até com mais visibilidade e densidade do que na Igreja Católica, como, por exemplo, é o amor às Escrituras sagradas dos nossos irmãos e irmãs evangélicos ou o cultivo da solene liturgia dos nossos irmãos e irmãs ortodoxos.

 

d) Perigos da interpretação do Card. J. Ratzinger

A concentração da Igreja católica não pode ser tanta que exaura e extenua em si mesma as virtualidades da Igreja de Cristo. Seria tão ridículo e perigoso como se alguém dissesse: a natureza humana está tão presente na raça negra por ser profundamente espiritual, estética e solidária que só ela é humana. A raça branca ocidental, européia e bávara, pelo implerialismo, colonialismo e guerras de extermínio que produziu, não seria humana, conteria apenas "elementos de humanidade". Logicamente essa é também humana, embora demasiadamente humana.

Mas semelhante afirmação exclusivista, semelhante àquela do Card. J. Ratzinger, é extremamente perigosa. Ela foi brandida concretamente pelos cristãos europeus em confronto com os indígenas "descobertos" na América e no Caribe. Na famosa "Controvérsia de Valladolid"(1550-1551) entre Bartolomé de las Casas, defensor dos índios e Juan Ginés de Sepúlveda, humanista e preceptor da família real espanhola, chegou afirmar este último: os indígenas não são filhos de Adão como nós, são animais tão espertos que para nos enganar, falam e constroem até casas e cidades semelhantes às nossas.

Não sendo de nossa família humana podem, essa era a conclusão, ser tratados como animais e ser tranquilamente escravizados. Sabemos que o Papa Paulo III já antes havia intervido libertadoramente com a bula Sublimis Deus (1537) e reafirmou que os indígenas são filhos de Adão, nossos irmãos e irmãs, têm direito a suas terras e não devem ser maltratados. O Cardeal legado reassumiu a afirmação de Paulo III e deu razão a Bartolomé de las Casas contra Sepúlveda.

Lógica semelhante de Juan Ginés de Sepúlveda fundamenta a argumentação do Card. J. Ratzinger. O que o conhecido intelectual e cientista francês Michel Serres diz da Declaração Universal dos Direitos Humanos pode ser dito da eclesiologia reducionista do Card. J. Ratzinger. Diz M. Serres: a Declaração Universal dos Direitos Humanos teve o mérito de afirmar que "todos os homens têm direitos", mas teve o defeito de entender "só os homens têm direitos". Foi preciso muita luta para estender esses direitos às mulheres, aos negros, aos indígenas e atualmente, à Terra como Magna Mater, aos ecosistemas e a cada ser da criação. O Card. J. Ratzinger teve o mérito de dizer: "a Igreja de Cristo subsiste na Igreja católica". Mas teve o defeito de entender: "só na Igreja católica". Agora entendemos que não é só um defeito mas um erro, contrário à mente dos Padres do Vaticano II.

Como todos crescemos na compreensão dos direitos estendidos a toda a criação, assim o Card.J. Ratzinger e seus seguidores terão que aprender, seguindo as orientações do Vaticano II, a estender a eclesialidade da Igreja de Cristo a todas as Igrejas e Comunidades eclesiais. Então sim, o ecumenismo será fecundo e a emulação, generosa, no sentido de ver qual das Igrejas vive melhor e anuncia mais adequadamente o evangelho de Jesus, um sonho possível à inteira humanidade e quem o expressa de forma mais visível, mais concreta, e mais convincente dentro de nosso mundo se globalizando.

 

Concluindo esta parte voltamos a sublinhar: A distinção entre o "est" e o "subsistit in" feita pelos Padres conciliares abriu caminho novo para o ecumenismo católico que não poderá mais ser fechado. O Card. J.Ratzinger na Dominus Jesus erroneamente usa o "subsistit in" para fechar o ecumenismo católico aberto, reafirmar a identificação exclusiva da Igreja católica romana com a Igreja de Cristo e assim voltar aquilo que o Concílio quis superar, ao "est", à identificação pura e simples, sem distinção.

Em razão destas reflexões caberia fazer a retorquio e perguntar: quem está fazendo "a subversão do texto conciliar sobre a subsistência da Igreja"? O livro Igreja: carisma e poder ou a Notificação do Card. J.Ratzinger contra ele, reafirmada na Declaração Dominus Jesus?

 

3. Caminhos para o ecumenismo católico

Deixando a polêmica de lado, importa agora acenar para alguns pontos, derivados do próprio Vaticano II, que possam fundamentar um ecumenismo católico menos arrogante e mais dialogal. Antes, entretanto, cabe evocar algumas considerações de ordem teológico-pastoral.

Diz-se e a Dominus Jesus o sublinha fortemente, que a Igreja é enviada a anunciar o evangelho ao mundo, segundo o mandato do Senhor. Entretanto, reparando-se a produção da Sagrada Congregação da Doutrina da Fe, nesta última Declaração e em tantas outras, nota-se uma ausência clamorosa de conhecimento do mundo atual, com suas chances e riscos. E quando oferece alguma perspectiva, é quase sempre pessimista, típica de instituições em crise de fe e de esperança. Tudo fundamentalmente é voltado para dentro, construindo a Igreja como um bastião que se preserva e que se basta a si mesmo. Com essa atitude solipcista não se evangeliza e não se vai ad gentes.

Ou as Igrejas, especialmente a católica, se abrem à nova fase da humanidade, a planetária, ou se condenam a ser um subproduto da cultura ocidental. Aquí devemos assumir como virtude o que o Card. J. Ratzinger considera vício a ser duramente combatido: o relativismo eclesiológico.

Devemos ser duplamente relativistas. Primeiramente devemos relativizar a expressão ocidental da Igreja de Cristo, mais especificamente, romana. Em sua teoria do poder e na forma como o organiza e distribui nota-se a mentalidade romana, centralizadora e autoritária, muito diversa da evangélica. Se o cristianismo se tivesse encarnado, por exemplo, na grande cultura tupi-guarani, cultura comum de milhões de indígenas, outro teria sido o sentido do poder. Para esse povo, o cacique se caracteriza pela generosidade, pelo serviço incondicinal aos outros e pela doação de tudo o que possui. Em algumas tribos se pode reconhecer o chefe na pessoa daquele que possui menos que os outros e que traz ornamentos mais pobres até miseráveis, pois o resto tudo foi doado. Caso o cristianismo, ao invés de ter-se encarnado na cultura romana com seu legalismo e com sua centralização, se tivesse encarnado na cultura política tupi-guarani, teríamos então padres pobres, bispos miseráveis e o papa, um verdadeiro mendigo. Então, sim, poderiam ser testemunhas d'Aquele que disse:"estou entre vós como quem serve e quem quer ser o primeiro seja o último". E a missão não teria sido dominação religiosa aliada à dominação política; os cristãos não seriam cúmplices e partícipes do genocídio dos povos originários da América Latina e alhures. Teríamos, seguramente uma Igreja melhor, mais sensível, mais participativa, mais servicial, mais integrada, mais ecológica e mais espiritual que a romano-católica.

A catolicidade do cristianismo e de todas as Igrejas passa pela capacidade de relativização de sua encarnação ocidental e de abertura para novas virtualidades de encarnação, possíveis evangelicamente. Passa também pela capacidade de manter comunhão com todas as encarnações, pois, todas elas traduzem, bem ou mal, o evangelho para o mundo, hoje globalizado.

Libertada de sua matriz ocidental, a Igreja católica romana dar-se-ia conta do ridículo e arrogante das teses sustentadas pela Dominus Jesus. Seu lado ocidental faz com que tenha uma visão capitalística e concentradora da herança de Jesus e, ao mesmo tempo, uma perspectiva imperialista da missão, como conquista de povos e culturas nos quadros da eclesialidade romano-ocidental.

Em segundo lugar, importa relativizar positivamente a eclesiologia, quer dizer, manter todas as Igrejas e Comunidades eclesiais relacionadas umas com as outras pois são expressões da mesma Igreja de Cristo. Ao invés de uma desqualificar a outra ou disputar se merece ou não o atributo de Igreja, vigoraria a pericórese entre elas (inter-retro-relacionamento de todos com todos), semelhantemente àquela que existe entre as divinas Pessas da SS.Trindade.

Numa perspectiva de globalização, importa ver o cristianismo mais como o Movimento de Jesus no mundo do que uma instituição com características pesadas em função de velhas tradições, sobrecarga de reflexão e com marcas dos conflitos religioso-políticos que caracterizaram a história cristã no Ocidente.

 

Feitas estas observações, elenquemos, sumariamente, alguns pontos doutrinários, inspirados pelo Vaticano II, capazes de fundar um outro tipo de ecumenismo católico.

Em primeiro lugar, há que ancorar a unidade da Igreja no mistério trinitário e não numa metafísica clássica e neo-escolástica como o faz o Card. J. Ratzinger. No Decreto sobre o Ecumenismo se diz claramente: "Deste mistério (da unidade da Igreja) é modelo supremo e princípio a unidade de um Deus na Trindade de pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo" (n. 2). Na Trindade há diversidade de Pessoas, uma não é a outra; não há nenhuma hierarquia entre elas, pois nenhuma Pessoa está acima ou abaixo da outra (contrariamente na Igreja católica); e, contudo, vigora uma profunda unidade que nasce da pericórese, a saber, do entrelaçamento de todas as divinas Pessoas entre si, todas se acolhendo na sua diversidade e todas se auto-doando totalmente. A essência da pericórese é o amor. Bem dizia São Bernardo: "Na Santíssima Trindade, o que é que conserva aquela suprema e inefável unidade, senão o amor? O amor constitui a Trindade na unidade e, de certa forma, unifica as Pessoas no vínculo da paz. Amor gera amor. Esta é a lei eterna e universal, lei que cria tudo e tudo governa"(Liber de diligendo Deo, c.12, n.35: PL 192, 996 B). Essa unidade é " modelo supremo" para a unidade da Igreja e entre as Igrejas. Elas são diversas mas todas uni-ficadas na mesma relação de aceitação mútua e de mútuo amor.

Em segundo lugar há de se entender a Igreja como communio, tema importante no Vaticano II e em toda a eclesiologia pós-conciliar (especialmente o Sínodo de 1985), com razão chamada de eclesiologia de comunhão. A primeira epístola de S.João nos oferece o sentido radicalmente teológico da comunhão: "aquilo que vimos e ouvimos nós vo-lo anunciamos para que vós também estejais em comunhão conosco. A nossa comunhão é com o Pai e com o Filho seu Jesus Cristo"(1Jo 1,3). Novamente a comunhão se realiza na diversidade das Pessoas que se unem pelos laços de vida e de amor. João Paulo II, diante de todos os bispos latino-americanos fez uma declaração das mais belas de seu Pontificado: "Nosso Deus em seu mistério mais íntimo não é solidão mas uma família, pois leva em si mesmo a paternidade,a filiação e a essência da família que é o amor, o Espírito Santo" (Documentos de Puebla,28/1/1979, Ed. Vozes, Petrópolis 1979,46). É a comunhão entre todas as Igrejas que faz delas a única Igreja de Cristo. A Igreja universal não é outra coisa senão a comunhão das Igrejas particulares, "nas quais e a partir das quais existe (exsistit) a Igreja católica una única", como o diz com pertinência a Lumen Gentium (n.23a). Família expressa aqui a communio. Esta compreensão comunional evita a crítica feita pela Declaração Mysterium Ecclesiae, segundo a qual a Igreja universal seria o conjunto ou a suma (summa) das Igrejas. Pela comunhão não se somam as Igrejas mas se reconhece a comunhão real entre elas que pode ser maior ou menor densidade, mas todas elas com caráter eclesial.

Em terceiro lugar, cabe ressaltar a importância de se entender a Igreja-Povo-de-Deus, considerado pelo Card. J. Ratzinger em sua conferência sobre a natureza da Igreja como "tema impróprio", "por se prestar menos a descrever a estrutura hierárquica da comunidade eclesial" (cf.Il Regno, op.cit. 233b-234a). Ora aqui reside o valor deste conceito de Igreja. Foi em razão disso que ele, na Lumen Gentium, foi anteposto ao capítulo sobre a Estrutura Hierárquica da Igreja (nas fases anteriores a ordem era inversa).

Esse conceito revela melhor a Igreja universal como peregrinação e movimento de todos os que seguem Jesus, portanto, de todas as Igrejas, antes que haja dentro delas distinções de ministérios, serviços e carismas. Estes não são facções mas funções de serviço e de animação de toda a comunidade. O conjunto orgânico de todas as Igrejas e Comunidades eclesiais, conjunto estruturado por relações de comuhão e de serviço ao mundo, constitui fundamentalmente o Povo de Deus em marcha. Isso é bem expresso pelo termo bíblico e profundamente teológico "povo de Deus", logicamente incômodo às construções reducionistas do Card. J. Ratzinger.

Em quarto lugar, é decisiva a missão para se entender a natureza da Igreja de Cristo. Esta não existe para si. Não é ela que Deus ama em primeiro lugar, mas o mundo, pois a ele enviou o seu Filho (Jo 3,16). Face ao mundo ela possui uma estrutura sacramental: é sinal e instrumento, portanto, é de Cristo para o mundo. Deve apontar para Cristo e não substitui-lo. Deve, por um lado, afirmar-se porque mediante ela a herança de Jesus é mantida viva na história. Mas, por outro, deve, simultaneamente, negar-se para que Cristo apareça e ganhe centralidade. A Igreja possui somente centralidade na medida em que está em Cristo e no Espírito e não fundada em si mesma. É a partir da missão que ela entende ser da ordem dos meios, como sacramento e sinal que já antecipa e torna presente a salvação mas que é chamada a desaparecer para dar lugar aos Povos de Deus no Reino definitivo (cf. Apoc 21,3).

Por fim, em função de sua missão no mundo, hoje globalizado, a Igreja dá a si as estruturas e serviços que lhe parecem adquados para cumprir sua missão. Importa imitar o comportamento das comunidades eclesiais dos primórdios que souberam traduzir a mensagem de Jesus para um tempo posterior, quando já não se esperava mais a parusia, e assumiram formas de organização tiradas do meio circundante mas que lhes eram funcionais.

 

Conforme as principais investigações católicas junto com as ecumênicas é consentido dizer com segurança que a Igreja, no que concerne ao seu lado institucional, não pode ser deduzida, diretamente, do Novo Testamento. Este não conhece a estrutura, apresentada como um fetiche intocável pelos documentos oficiais, bispo-presbítero-diácono. Tal estruturação é testemunha somente a partir de Santo Inácio de Antioquia na terceira geração apostólica. E ao decidir, as comunidades eclesiais originárias se inspiravam mais no Espírito presente (cf.At 15,28) e no Senhor ressuscitado do que nas referências ao passado. Hoje, a Igreja se confronta com a ousadia de olhar para frente, pois face a uma situação absolutamente inédita, a emergência de uma única sociedade mundial, deve, no Espírito, tomar decisões, carregadas de consequências para o futuro do Evangelho no mundo. Com dizia o velho mestre Karl Rahner, a Igreja deve ousar, na força do Ressuscitado e de seu Espírito, até o ponto em que ir além seria heresia ou traição. E ela pode se permitir tal ousadia porque se sente divinamente acompanhada. Somente desta forma se coloca à altura dos desafios mundiais. O desafio vale não apenas para essa ou aquela Igreja mas para a totalidade do Cristianismo como movimento de Jesus que deve se compor junto com outros movimentos espirituais que também oferecem sua mensagem à humanidade. Todos juntos são coresponsáveis para que o Supremo que habita o ser humano não seja afogado nem erradicado da face da Terra: a presença de Deus no coração do universo, no âmago da história e na profundidade do ser humano.

O ecumenismo não visa somente a paz entre as Igrejas e religiões pelo mútuo reconhecimento no amor e na cordialidade, mas principalmente a paz entre as tribos da Terra e a paz perene com a própria Terra, Magna Mater e Gaia. Sem essa paz poderemos conhecer o destino dos dinossauros. A questão axial não é mais quem é Igreja de Cristo e quem não o é. Sequer qual é o futuro do cristianismo ou da civilização ocidental que serviu de nicho encarnatório para as principais Igrejas. A nova centralidade se encontra nisso: que futuro têm a Terra e os filhos e filhas da Terra, a humanidade? Esse futuro não está mais garantido. Desta vez não há uma arca de Noé que salve alguns e deixa perecer os outros. Ou nos salvamos todos ou nos perdemos todos, com ou sem elementos eclesiais. Em que medida a herança de Jesus, a Igreja católica com toda sua pretensão de exclusividade e as demais Igrejas e Comunidades cristãs ajudam a garantir um futuro de vida e de esperança para a Terra e a humanidade? A isso deve servir o ecumenismo.

Diante da crise da Terra e da humanidade é diversionismo irresponsável falar de "subsistit in" ou "est", de "subsistência" ou "ganhar forma concreta". Para todos o Titanic está afundando e alguns alienados gaiamente ainda teimam em se ocupar de tais questões. Bem nos advertiu o Senhor:

"Quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, logo dizeis: vai chover. E assim acontece. Quando sentis soprar o vento sul, dizeis: vai fazer calor. E assim sucede. Hipócritas, sabeis julgar os fenômenos da terra e do céu; então como não sabeis julgar o momento presente? Por que não julgais por vós mesmos o que é justo" (Lc 24,54-57)?

 

Leonardo Boff
Prof. Dr. de teologia e ética na Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 

 

Bibliografia essencial

Apresentamos alguns títulos que apresentam com mais detalhes a questão aventada no nosso trabalho:

Boff, L., Die katholische Kirche als Ganzsakrament und die sakramentale Struktur der nicht-katholischen Kirchen, em Die Kirche als Sakrament im Horizont der Welterfahrung, Paderborn 1972, 413-426.

Boff, L., Igreja: carisma e poder. Com todos os documentos da polêmica com o Vaticano e com a minha resposta inédita ao Card. J. Ratizinger, Atica, S.Paulo 1994.

Baum, G., Die ekklesiale Wirklichkeit der anderen Kirchen, em Concilium 1(1965)291-303.

Congar, Y., Le développement de l'évaluation ecclésiologique des Eglises non catholiques, em Rev. Droit. Can. 25(1975)215-216.

Kasper, W., Der ekklesiologische Charakter der nichtkatholischen Kirchen, em ThQ 145(1965)42-62.

Ruidor, I., Estructura sacramental de las Iglesias y comunidades cristianas no católicas, em Estudios Eclesiásticos 42(1967)207-216.

Dantine, W., Die kontroverstheologische Problematik der sogenannten "ekklesialen Elemente" im Blick auf das ökumenische Gespräch, em Eneuerung der einen Kirche (Festchr.fur H. Bornkamm, hrsg. von J Lell), Göttingen 1966,140-155.

Dietzfelbinger, W., Die Grenzen der Kirche nach der dogmatischen Konstitution "De Ecclesia" em Kerygma und Dogma 11(l965) l65-176.

Thils, G., Oecumenisme et romanocentrisme, em Oecumenica l967, 194-207.

De Halleux, A., Les principes catholiques de l'oecumenisme, em Rev. Th. Louv. 16(1985) 320-322.

Dulles, A., The Church, the Churches and the Catholic Church, em TS 33(1972)211ss.

Scheele, P.W., Das Kirchensein der Getrennten, em Catholica 22(1968) 30 ss.

Sullivan, F.A., In che senso la Chiesa di Cristo "sussiste" nella Chiesa cattolica romana? em Vaticano II: bilancio de prospettive a cura di René Latourelle, vol.2, Cittadella Editrice, Assisi 1987, 811-824.

___________________________________

* Card. J. Ratzinger por três vezes reafirmou a condenação de minha leitura do "subsistit in" do Vaticano II, da forma mais pública, solene e contundente possível. Honrou-me com uma nota (n. 56) na sua Declaração da Dominus Jesus. A pedido de eminentes teólogos de várias partes do mundo, inclusive de altas autoridades eclesiásticas, fui solicitado a dar uma resposta. A contragosto o faço, pois considero, numa perspectiva global, estas questões intra-sistêmicas e irrelevantes para a maioria da humanidade e dos próprios cristãos que se orientam pelo evangelho. Publiquei uma versão profético-denunciatória sob o título: "Ratzinger: exterminador do futuro?" publicada no Jornal do Brasil nos dias 4,5,6 de outubro de 2000 e na RELaT, Revista Eletrônica Latinoamericana de Teologia (http://servicioskoinonia.org/relat), e esta, de teor estritamente histórico-teológico. Vivo na periferia do mundo e da Igreja com recursos bibliográficos reduzidos. Ainda assim assumi a tarefa com a seriedade necessária e possível às minhas limitações. Mas não pretendo mais voltar a ela.

 


 



  Portal Koinonía | Bíblico | RELaT | LOGOS | Biblioteca General | Servidores de Lista | Martirologio Latinoamericano
Página de Mons. Romero | Página de Pedro Casaldáliga | Jornadas Afroindoamericanas | Agenda Latinoamericana