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O RESSURGIR DE UM POVO
A VIDA QUE NASCE DE GESTOS CONCRETOS DE SOLIDARIEDADE E ORGANIZAÇÃO

Ezequiel 37

Norma SERRA


 

  Premio honorífico del «Concurso de Páginas Neobíblicas» convocado por la Agenda Latinoamericana'2006, otorgado y publicado en la Agenda Latinoamericana'2007

 

Naquele bairro pobre da periferia, a noite transcorria calma. As pessoas haviam chegado de seus trabalhos, geralmente como empregadas domésticas (as mulheres) e os homens da dura lida no comércio ou na construção civil. Um ou outro morador tinha uma atividade diferente como: policial militar... A maioria das famílias já estava dormindo. De repente, um ruído estranho nos becos da favela. Primeiro o barulho de passos, muitos passos. Eram muitas pessoas... Depois, o estrondo de portas sendo arrombadas! Em seguida os gritos... Às pressas as pessoas se levantaram, mas ninguém tinha coragem de abrir a porta ou a janela para ver o que estava acontecendo.

Jurema sacudiu seu irmão que estava tão cansado, que não acordara nem com os gritos.

-Acorda, Jorge, alguma coisa muito séria está acontecendo...

Sem entender o porquê de ter sido sacudido daquela maneira, Jorge resmungou:

- Ah! Deixa isso pra lá!... Não deve ser nada de mais! E virou-se para continuar o sono de quem precisava ter o corpo descansado para agüentar a lida do dia seguinte.

Jurema ficou angustiada... Os gritos se repetiam e chegavam mais perto, assim como os tiros!...

Meu Deus o que será isso?! O que estará acontecendo?!

O desespero começou a tomar conta do seu coração. Nascera e se criara naquela favela, assim como a maioria de seus vizinhos. Conhecia todo mundo: Dona Maria, que tinha sido amiga de sua mãe que morrera há dois anos vítima de um aneurisma cerebral e que por infelicidade, mesmo sendo levada ao Hospital não conseguira ter atendimento adequado e em menos de 48 horas foi ao encontro do Criador embora só tivesse 52 anos. Seu pai (de quem se lembrava vagamente) saíra de madrugada para trabalhar como ajudante de pedreiro num edifício e caíra do andaime em que trabalhava sem cinto de segurança, quando o cabo de aço se rompera. Fora enterrado à custa de uma “vaquinha” feita na vizinhança. Nessa época ela tinha só cinco anos.Sua mãe nunca mais quis saber de se envolver com outro homem. Trabalhou duro como faxineira para criar ela e o Jorge que era dois anos mais novo. Além de dona Maria, dona Julia e seus filhos, Lucinha que era da sua idade e já tinha três filhos, eram vizinhas com quem tinha uma grande amizade. Pensou em todas essas pessoas e quis abrir a porta, mas o medo que era uma constante naquele lugar a impediu. A única coisa que conseguiu fazer foi ajoelhar-se, colocar o rosto entre as mãos e rezar e chorar ao mesmo tempo.

De repente, um empurrão colocou abaixo a porta de sua casa. Homens com fuzis e revólveres e os rostos cobertos por tocas ninjas, entraram gritando:

-Onde estão esses filhos da..., esses vagabundos, desgraçados?... Diga logo... e apontavam as armas para a sua cabeça.

Foi tudo muito rápido, mas para ela foi como se horas de terror tivessem transcorrido.

-Não sei! O que vocês querem?!...

-Sua vadia essa casa não tem homem não?!

Com a mesma velocidade que falavam, entraram no pequeno quarto onde Jorge dormia e que meio tonto tentava sentar-se na cama. Foi agarrado por dois homens que o arrastaram aos gritos para o lado de fora da casa, enquanto suplicava:

-Me soltem, pelo amor de Deus, eu não fiz nada, eu sou trabalhador!...

Atônita, Jurema viu seu irmão ser levado. Em seguida, gritos e muitos tiros!...Desesperada, a moça não se movia. O medo a paralisara. Ficou ali, por muito tempo, até que o barulho dos tiros cessou e somente se ouviam gritos de dor pelos becos da favela. Cambaleando, Jurema atreveu-se a chegar até a porta que ficara escancarada. A 10 metros dali, havia um corpo caído e ensangüentado. Era Jorge que tinha sido executado pelos homens que o arrastaram de casa. Não conseguiu falar, nem chorar e nem gritar. A dor era tanta que a sufocava!

-Meu Deus! O que foi que nós fizemos para tanta desgraça?!

Pessoas foram chegando desesperadas, pois em cada canto da favela havia um ou mais mortos. Naquela noite, a comunidade contou 21 mortos, todos arrancados de casa com brutalidade e violência. Ninguém tinha sequer passagem pela polícia. Todos eram trabalhadores, jovens, pais de família, homens de paz sumariamente executados sem nenhuma chance de reagir ou de saber o que estava acontecendo. Muitos na frente de suas mulheres, filhos e mães. Um verdadeiro horror!...

A imprensa logo chegou. Os jornais do dia seguinte estamparam em primeira página, corpos enfileirados dentro dos caixões baratos. A cena era grotesca. Eram como ossos jogados... A vida se fora de uma maneira brutal. A comoção na cidade foi grande. Mas por que aquela tragédia havia se abatido sobre os pobres e suas famílias, cujo único pecado era morar em uma favela?!

Jurema ficara só no mundo. Seu irmão estava morto e ela sem ninguém. Da casa de Dona Maria, “aqueles homens” haviam matado dois de seus filhos, seu marido e seu genro.

Uma semana após a tragédia, muitas famílias se mudaram e foram viver longe daquele lugar que só lhes trazia pavor.

Jurema também pensou em fazer o mesmo, mas depois pensou:

- Ir para onde?! Para outra favela e assistir a repetição de tudo? Os pobres, e favelados sempre estarão na mira dos bandidos. Nesse caso, os bandidos eram policiais que se valeram do anonimato e foram atrás de vingança. Dias antes, três policiais haviam sido mortos por traficantes. E aqueles homens que deveriam estar a serviço da proteção da população, haviam se tornado mais bandidos do que os próprios bandidos!...Jurema rezava e pedia a Deus que a ajudasse a fazer alguma coisa para que aquilo não se repetisse. Mas o quê?! Era uma simples mulher pobre, e agora sozinha no mundo. Foi aí que veio-lhe a idéia de procurar Dona Maria e outras mulheres que estavam sofrendo a perda de alguém da família, para juntas se consolarem e buscar forças para continuar vivendo. O primeiro encontro foi doloroso, mas ao mesmo tempo aconchegante. Elas conseguiram dar força umas às outras e entenderam que precisavam denunciar ao mundo, que os assassinos eram policiais mascarados e exigir que eles fossem punidos. Aquela chacina, não poderia se repetir NUNCA MAIS!

Assim, começou a luta daquelas mulheres, tendo à frente Jurema, para provar a inocência de seus filhos, irmãos maridos e pais e punir os seus assassinos. Foi difícil, mas elas conseguiram sensibilizar pessoas importantes: jornalistas, escritores, gente do meio artístico, grupos de DH, ONGS, religiosos de todos os credos e até pessoas do exterior ficaram ao lado delas solidariamente. A luta foi dura e desigual. Dias e dias indo depor e identificar os executores, sofrendo ameaças; perdendo empregos porque tinham que estar na delegacia nos horários mais complicados; sobrevivendo com a ajuda de um ede outro e sentindo-se muito pequenina diante da truculência policial e daqueles que os protegiam. Além da punição dos policiais-bandidos, Jurema, queria reerguer a auto-estima da comunidade; fazer os próprios moradores da favela acreditarem que era gente de bem, trabalhadora e ordeira; mostrar ao mundo, que a PAZ é possível ser construída, mesmo quando tudo parece estar perdido; que a solidariedade, a coragem, a ajuda mútua e a organização faria nascer uma vida nova para todos. A união seria a palavra chave para a transformação. Como a Dona Maria tinha sido a mais atingida, pois de uma só vez perdera quatro homens da família e cuja memória precisaria ser mantida para que outros massacres não acontecessem, a sua casa transformou-se num local onde as crianças e os jovens da comunidade agora poderiam se encontrar para viver a cidadania e aprender que os acontecimentos trágicos jamais deveriam se repetir. Ela foi para uma outra casa na favela e deixou que a sua antiga fosse transformada em um lugar de Esperança ao qual deram o nome de Casa da Paz.

Jurema sabe que o trabalho ainda é muito pequeno, mas quando olha as crianças brincando, fazendo trabalhos manuais, aprendendo a utilizar a informática; jovens se preparando para entrar numa universidade, ela faz memória daqueles corpos enfileirados, sem nenhum sopro da vida; relembra as idéias ressequidas, sem um traço sequer de esperança; das pessoas que se acomodaram e não reagiram à injustiça, à dominação e à prepotência de quem se diz mais forte e poderoso. Agora, com o esforço de muita gente, a vida vai retornando! Onde se ouviu gritos de dor e desespero-risos de crianças e o som das músicas cantadas pelos jovens. Os tiros foram substituídos pelo barulho das teclas dos computadores; o teatro, a capoeira a pintura, dão um novo estímulo à meninada. A cada dia a história recomeça naquela favela. De um vale de corpos ressequidos, as ações de amor, persistência e solidariedade foram capazes de fazer ressurgir um povo novo, consciente e fraterno, cujo espírito generoso está voltado para a construção da Cidadania, da Vida e da Paz.

 

Texto fictício, mas baseado na Chacina da Favela de Vigário Geral no Rio de Janeiro, ocorrida na noite de 18 de agosto de 1993 e que deixou 21 mortos.

 

Norma Serra

Rio de Janeiro - BRASIL

 


 



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